Infantilidades – Bebedouro – 1962

Dymiro Vita

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Waldomiro Almeida Junior, bebedourense de coração, engenheiro civil com atuação em barragens e usinas hidrelétricas, atualmente como consultor técnico

Estudos estabelecem que a nossa fase infantil normal vai até os 12 anos de idade. É uma fase caracterizada pela inconsequência e o descobrimento das coisas. Meus primeiros cinco anos de idade, até meados de julho de 1960, eu vivi com minha família em Orlândia, onde meu pai Waldomiro Almeida era serventuário da justiça e minha mãe Olga Kfouri de Almeida era professora primária. Toda a minha infância, a partir dos cinco anos, foi vivida em Bebedouro. Não há lugar melhor para passar a infância do que as cidades pequenas do interior, onde há bastante liberdade, se conhece muita gente, entre outros benefícios. Algumas das minhas peripécias e aventuras em Bebedouro, na minha fase infantil, estão descritas nas crônicas já escritas: “Grupo Escolar Coronel Conrado Caldeira”; “Férias do Grupo Escolar Abílio Manoel”; “Primeira Comunhão”; “Meu nome é Waldinho”; “IEPC Instituto Estadual de Educação Dr Paraíso Cavalcanti”; “Casa da tia Hilda”; “Filho Temporão”; “Memórias de Bebedouro II” e muitas outras. Inicio esta crônica me lembrando de um fato que nunca foi contado publicamente. Antes, é preciso dizer que viemos de mudança de Orlândia para Bebedouro, em julho de 1960, e a gente foi morar na rua Antônio Alves de Toledo, 242, no trecho entre a Coronel João Manoel e Brandão Veras. Pois bem. Por volta de 1962, eu tinha 7 anos e estava no primeiro ano primário, classe da tarde, do Grupo Escolar Coronel Conrado Caldeira, que fica na Rubião Junior, onde também lecionava a minha mãe. Nós morávamos cerca de três quarteirões do Cine Rio Branco, que fica na rua São João quase esquina com a Oscar Werneck. Uma certa noite, meu pai e minha mãe decidiram assistir um filme na primeira sessão do Cine Rio Branco. Me deixaram com a minha irmã Angela Rosa de Almeida, que à época ainda namorava o Betinho. Logo que os meus pais saíram para o cinema, aproveitando uma distração da minha irmã, eu “fugi” e fui pro Cine Rio Branco. Chegando no cinema, eu disse para o porteiro que meu pai e minha mãe estavam na primeira sessão e eu precisava falar com eles. O porteiro me deixou entrar. Como estava muito escuro na sala do cinema, eu não consegui encontrar meus pais. Então me sentei em um lugar e comecei a assistir ao filme. Peguei no sono. A primeira sessão acabou. Meus pais saíram pela porta lateral na rua Oscar Werneck. Eu acordei já na segunda sessão e fiquei assistindo o filme. Terminado o filme, quase onze horas da noite, eu fui para casa andando pela rua São João, porque eu não gostava de passar à noite na Coronel João Manoel, por causa dos caixões de defunto expostos em vitrines na frente da casa do Ângelo Latorre. Ao chegar na esquina da Coronel João Manoel com Antônio Alves de Toledo, vi um grande tumulto na porta da minha casa. Tinha até a viatura da polícia. Bastante gente aglomerada, entre vizinhos e conhecidos. Meus pais tinham acionado meio mundo achando que eu havia sido “sequestrado”. Eu, a princípio, fiquei assustado, mas continuei descendo a rua em direção à minha casa. Eu estava na calçada me aproximando de casa, quando ouvi minha mãe gritar: “olha ele”, “onde será que ele estava?”. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, eu entrei em casa. Deitei na pedra da varanda de casa, cruzei as pernas e fiquei observando todo o burburinho. Minha mãe e meu pai ficaram muito furiosos comigo. Daquela data em diante passei a ser fortemente vigiado. Coisas da inconsequência da fase infantil, que trazem muitas saudades. Se fosse nos dias de hoje eu certamente estaria usando tornozeleira eletrônica.

(Colaboração de Waldomiro Almeida Junior, bebedourense de coração, engenheiro civil com experiência em barragens e usinas hidrelétricas, atualmente atuando como consultor técnico).

Publicado na edição 11.033, quarta, quinta e sexta-feira, 16, 17 e 18 de setembro de 2026 – Ano 102