Memórias de um militante político operário sobre Bebedouro, na década de 1940

José Pedro Toniosso

0
280
As condições dos trabalhadores ferroviários, especialmente os da Estrada de Ferro São Paulo-Goyaz, foi o principal aspecto observado pelo militante Eduardo Dias. Na foto, última composição da SPG, em 1969, sob controle da Cia. Paulista.

Eduardo Dias nasceu na Espanha, em 1917 e emigrou com a família para o Brasil na década seguinte, desembarcando no porto de Santos, em 1926, de onde seguiram para a capital paulista. Residiu em condições precárias em um cortiço no bairro da Mooca, onde cursou os primeiros anos escolares. Logo se mudaria para o Ipiranga, em uma época de agitações políticas em que muito se falava em revoluções.

Adolescente, começou a trabalhar em uma fábrica, transferindo os estudos para uma escola noturna. No ambiente de trabalho passou a observar a rotina dos operários e a ter contato com leituras que moldaram sua visão de mundo, desde jornais políticos a livros como “A Mãe”, do russo Máximo Gorki.

Ingressou no Partido Comunista em 1939, em plena vigência do Estado Novo, e embora o Partido estivesse na ilegalidade, era um membro atuante, participando de várias ações em defesa das classes operárias e contra a ditadura. Com a democratização a partir de 1945, o Partido voltou à legalidade, e para expandir suas ações no interior, enviou militantes para cidades em que o operariado tivesse maior representatividade.

Foi neste contexto que Eduardo Dias esteve em Bebedouro, na época um importante centro ferroviário, com significativo número de operários. Deixou registradas várias impressões sobre a cidade, incluindo algumas críticas sobre o conservadorismo político: “Passamos um duro período nesta cidade. Em plena liberdade partidária, vivíamos aqui como se fossemos marginais. […] Este companheiro (identificado apenas como João), filho de família burguesa do local, sofria pressão de todas as formas devido as suas ideias. Outros companheiros, operários artesãos principalmente, ao se declararem comunistas, praticavam verdadeiro ato de heroísmo”.

A tranquilidade existente, típica das pequenas cidades interioranas, também foi alvo de críticas: “Havia um mês que estávamos em Bebedouro. Pareciam-me anos. […] Eu seguiria de manhã (para Olímpia), curioso por conhecer novos lugares e sair daquela pasmaceira onde estava. […] As pessoas se cumprimentavam, andavam, passavam, conversavam na medida certa. À noite, principalmente os rapazes e moças, a girar, girar, com risinhos contidos, cochichando, em volta do jardim da praça da Matriz. Todos os dias. Nada mudava. Sempre a mesma coisa. De manhã bem cedo, desci para a estação ferroviária. Realmente, desci. O centro da cidade, onde se localizava a sede do Partido, era lugar alto. A estação ficava na parte baixa.”

Sobre os ferroviários, deixou registradas algumas considerações sobre as condições de vida e de trabalho dos empregados da Estrada de Ferro São Paulo – Goyaz, consideradas muito precárias: “Na verdade, pareciam párias. Marginalizados até pelos ferroviários da Paulista, que se julgavam em melhores condições. […] Não era por acaso – apesar de não ser correta – a repulsa que os chefes de trens da Paulista de então, todos impecavelmente trajados, sentiam quando, ao chegar a Bebedouro, na estação, cruzavam com seus colegas da SPG. Sentia-se o acabrunhamento dos passageiros quando estes operários se aproximavam, pedindo a passagem. Os viajantes, mais esclarecidos, comentavam a situação de penúria das famílias desses ferroviários”.

O militante mostrou-se perplexo com o conformismo dos operários diante da precariedade e os últimos registros sobre Bebedouro referiam-se às ameaças de greve nos finais de 1946, feitas por iniciativa dos próprios ferroviários. “Estavam decididos ir à greve. […] De ponta a ponta não se ouvia outra coisa. […] Sabia-se que não seria fácil. Nunca, jamais, acontecera coisa igual. Greve… nem por sonhos. […] O tempo passava. […] esgotavam, junto à direção da ferrovia, todos os meios possíveis para chegar a um acordo. Nada. Os diretores permaneciam inflexíveis. No futuro saberíamos o porquê desta inflexibilidade. A ferrovia estava em situação de insolvência.”

A greve de fato aconteceu, envolvendo não apenas os ferroviários, mas também colonos das fazendas da região. Porém logo seria contornada, devido às articulações entre empresariado e governo, enquanto a SPG seria adquirida pela Cia. Paulista, em 1950.

As considerações de Eduardo Dias sobre Bebedouro e cidades da região, como Olímpia e Barretos, foram publicadas no livro “Um imigrante e a revolução: memórias de um militante operário – 1934-1951”, de sua autoria.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense. www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição nº 10.742, sábado a terça-feira, 18 a 21 de março de 2023