Muito além de um juramento

Wagner Zaparoli

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“Juro por Apolo médico, por Esculápio, Hígia, Panacéia e por todos os deuses, a quem tomo como testemunhas, que cumprirei este juramento e compromisso conforme o melhor de minha capacidade e discernimento…”

Quem é médico certamente tem no juramento de Hipócrates um velho conhecido. Todos que se formam em medicina devem recitá-lo e cumpri-lo no exercício de sua profissão. O texto do juramento revela o quão antiga é a profissão de médico, a qual remonta muitos séculos antes da era cristã.

Talvez o pioneiro que fez história na medicina ocidental tenha sido Hipócrates, embora se duvide que ele realmente tenha existido. Antes dele a medicina não poderia ser definida como uma ciência propriamente dita. Era, antes de mais nada, uma mistura de misticismo, esoterismo e muita superstição, que destinava a origem das doenças ou das curas ao sobrenatural.

Proliferaram na Grécia antiga inúmeros santuários aos deuses gregos relacionados às doenças. O mais destacado desses deuses foi Esculápio (filho de Apolo e deus da medicina). Diz a história que por volta do ano 770 a.C. iniciou-se a construção de vários santuários a Esculápio onde os pacientes se dirigiam para curarem-se dos mais diversos males. Neles eram realizadas sessões de banhos e jejum, das quais o paciente poderia sair curado ou não. Se saísse, fazia uma oferenda em dinheiro e deixava o seu nome, sua doença e seu tratamento registrados em uma placa, a qual incentivava outros pacientes. Se não obtivesse a cura, era acusado de não ter seguido as orientações ou não ter participado com fé no tratamento.

Na época de Hipócrates

Hipócrates se transformou num expoente da medicina antiga por conduzir um processo contrário àquele que atribuía a doença às causas sobrenaturais. Ele foi o primeiro, de acordo com a história, a trabalhar com os dados da lógica racional, além de agregar um conhecimento empírico ao processo médico. Eis então que surge a pré-ciência médica, bem como a medicina ocidental.

Hipócrates nasceu na ilha de Cós em 460 ou 450 a.C., onde ensinou por longo período. Era filho do médico Heracleides, de quem foi pupilo. Como não há tantos vestígios de sua existência, o lado mitológico às vezes transcende os fatos biográficos do personagem. Dizem que ele teria destruído o templo e os arquivos dos santuários de Esculápio e que teria vivido mais de 100 anos.

A ele é atribuída a Teoria dos Humores que diz que o corpo estaria sujeito a ritmos de desenvolvimento e mudança determinados por fluídos: o sangue (fonte de vitalidade), a bile amarela (o suco gástrico), a fleuma (secreções incolores), e a bile negra (melancolia).

Galeno, o herdeiro

Se é que podemos dizer assim, Galeno certamente foi o grande herdeiro da cultura deixada por Hipócrates, não porque a tenha recebido pura e simplesmente como um filho recebe uma fortuna do pai falecido, mas porque soube aproveitá-la e aprimorá-la exponencialmente.

Cláudio Galeno nasceu por volta de 130 d.C. no que hoje se chama Bergama, na Turquia. Nasceu em berço esplêndido, por isso mesmo conseguiu uma educação longa e abrangente. Estudou filosofia, matemática, literatura, medicina e anatomia.

Como médico de gladiadores conseguiu excelente conhecimento sobre anatomia e tratamento de feridas, o qual, ao longo do tempo, transformou em vários tratados sobre o corpo humano e seu funcionamento que serviram de referências a outros grandes mestres da medicina, como Andreas Vesálio (1514-1564).

Da mesma forma que Immanuel Kant está para a filosofia e Henri Poincaré para a matemática, Hipócrates e Galeno estão para a medicina. Hipócrates já detém o título de “pai da medicina”, mas é de se notar que foi através dos estudos e pesquisas de ambos que a medicina deixou de ser um simples joguete do sobrenatural para se transformar na ciência como a conhecemos hoje. Eles não só ousaram pensar diferente, mas transformaram esse pensamento em ações aplicadas.

“… Portanto, se cumprir este juramento e não o violar, possa eu prosperar em minha vida e minha arte, granjeando fama entre todos os homens para sempre. Mas, se o transgredir e perjurar, que me aconteça o contrário”.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.786, sábado a terça-feira, 9 a 12 de setembro de 2023