

Quando o poder público escolhe o nome de um cidadão para nomear uma escola, autarquia ou repartição deveria estar selando o compromisso de que o legado daquela pessoa jamais seria esquecido pelas próximas gerações, ou seja, não poderia ter prazo de validade.
No entanto, nem sempre é o que acontece, pois em vários casos, em decorrência de alguma reforma administrativa, quando determinado prédio muda de função ou as portas de alguma repartição se fecham, o homenageado é sumariamente “deshomenageado”, desconsiderando a biografia de personagens que contribuíram no desenvolvimento do município.
Há vários exemplos desse apagamento institucionalizado presentes na história recente de Bebedouro. Entre eles, o nome do professor Manoel Izidoro Filho, autor de diversas obras de referência sobre a história bebedourense, entre elas o clássico “Reminiscências de Bebedouro”, e que foi merecidamente escolhido para nomear o Arquivo Público e Histórico de Bebedouro – a “Casa da Memória”.
Inaugurado em 24 de outubro de 2002, em uma construção histórica localizada ao lado da Prefeitura, o Arquivo foi transferido posteriormente para outro prédio da municipalidade na rua Visconde do Rio Branco, onde permaneceu até ser desativado. Depois, a placa de identificação lá permaneceu por bom tempo, até ser retirada recentemente, levando consigo o tributo ao memorialista. Não deixa de ser uma ironia: o cidadão que através dos seus livros procurou evitar o esquecimento do seu próprio passado, teve o seu nome apagado.
Outra situação refere-se ao professor Waldemar Antônio de Mello, cujo nome foi conferido à Casa da Cultura inaugurada em 25 de setembro de 1987 na avenida dr. Pedro Paschoal. Entre vários atributos do homenageado, era notório mestre de cerimônias, idealizador da festa do “Bebedourense Ausente”, colaborador da imprensa, colunista social da Gazeta de Bebedouro com o pseudônimo de Marquês de Sandoval.
No início dos anos de 1990 a Casa da Cultura foi fechada e o acervo transferido para o Museu Municipal, enquanto o patrono foi esquecido. Na década seguinte, em 2007, a junção da Biblioteca, Pinacoteca e Museu Municipal em prédio na rua dr. Brandão Veras levou à criação do “Espaço Cultural Waldemar Antônio de Mello” que, no entanto, após cerca de dez anos, também foi fechada e novamente o homenageado foi esquecido.
O mesmo destino teve a professora Léa Terezinha Pitelli de Souza Lima, escolhida para nomear o Museu Municipal de Arte e História, inaugurado em dezembro de 1992 em um casarão histórico localizado na rua Cel. Conrado Caldeira. Em meados da década seguinte, com a venda do prédio que era alugado, o Museu encerrou suas atividades, enquanto a construção histórica viria a ser demolida para a edificação de uma agência bancária.
Em 2016, parte do acervo remanescente do antigo Museu foi organizado em novo espaço, localizado na praça Valêncio de Barros, e que recebeu a dupla denominação de Casa da Cultura “Professor Waldemar Antônio de Mello e Museu de Artes e História “Professora Léa Pitelli”. Mas a retomada das homenagens durou pouco, pois em menos de dois anos o local foi fechado e o acervo foi remanejado para o nomeado desde então “Museu de Bebedouro”, na região do Lago Artificial.
Como contraexemplo, houve casos em que o fechamento de escolas ou repartições resultaram na transferência do patrono para outros locais, preservando homenagens outrora concedidas.
Entre eles, o professor Theodoro Montera, patrono do extinto Grupo Escolar da Vila Elisabet, passou a denominar rua na Vila Santa Terezinha; enquanto o professor Abílio França Valente, que emprestou seu nome para extinta escola estadual no bairro Rassim Dib, passou a nomear rua no Jardim de Lúcia. Por sua vez, com o fechamento da Delegacia de Ensino de Bebedouro, o nome do seu patrono, professor Plínio de Albuquerque Furtado, foi dado à escola municipal localizada no Jardim Casagrande.
Como forma de evitar o esquecimento e salvaguardar a memória histórica, seria oportuna a criação de um mecanismo legal, como uma “Lei de Proteção à Memória” – que garanta a preservação do reconhecimento público dos cidadãos homenageados.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,
www.bebedourohistoriaememoria.com.br).
Publicado na edição 11.010, quinta a terça-feira, 4 a 9 de junho de 2026 – Ano 102




