Imaginar os primórdios da astronomia sem citar Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e Galileu Galilei seria o mesmo que falar da física moderna ignorando os nomes de Albert Einstein, Ernest Rutherford e Max Planck. A jornada da vida desses personagens não pode ser dissociada da jornada da ciência. Frequentemente elas se interpõem e às vezes chegam a se fundir literalmente.

Para esses famosos, a história costuma ser condescendente e dificilmente os esquecerá. Menos sorte têm outros, que por terem vivido em anos longínquos, boa parte de suas obras perderam-se no tempo.

Quem se lembra de Aristarco de Samos, um astrônomo grego que já falava sobre o heliocentrismo mais de 200 anos antes de Cristo nascer? Ou de Hiparco de Nicéia, que ainda antes de Cristo, já havia calculado a velocidade de precessão da Terra com espantosa exatidão (o valor calculado por ele foi de 51,4 segundos de arco por ano, enquanto que o valor estimado hoje é de 49,8 segundos). E esses dois nasceram e viveram na Grécia, o berço da civilização ocidental. Que dirá se citarmos os nomes de astrônomos que tenham vivido em terras áridas do oriente, como o atual Uzbequistão.

Talvez tenhamos até dificuldade em localizar esse país no mapa, dada a nossa crescente ignorância em geografia, história e ciência.

O príncipe astrônomo

Final da idade média, mais precisamente em 1394, nascia Muhammad Tagaray, neto do guerreiro mongol Tamerlão, descendente de Gêngis Khan.

A influência dos pais que cultivavam as artes e as ciências naturais e o contato ainda jovem com extraordinários cientistas incentivaram Tagaray a estudar e acumular profundos conhecimentos de matemática, astronomia, filosofia, política, história, medicina e literatura árabe e persa. Essa espetacular base de conhecimentos adquirida ainda em idade tenra seria fundamental para a concretização de suas obras científicas. Aos 15 anos foi nomeado governador de Samarcanda – cidade do atual Uzbequistão – recebendo na ocasião, o apelido de Ulugh Bei (grande príncipe), nome pelo qual os seus súditos o reconheceriam e a história da ciência guardaria para a posteridade.

Um espaço para a evolução

Dentre as diversas obras de Bei, uma delas se destaca incondicionalmente. Trata-se da construção das madrasas ou “lugar de estudo”, que nada mais eram do que escolas superiores islâmicas ligadas a internatos. Elas tinham algumas funções específicas como de seminário teológico, faculdade de direito e mesquita. Embora as madrasas tenham surgido no século X, a construída em Bukhara em 1417 por Bei tornou-se um verdadeiro modelo do que hoje podemos chamar de universidade nos moldes ocidentais.

Já a madrasa fundada em Samarcanda em 1420 tinha outros enfoques, como por exemplo, os estudos de astronomia, matemática, lógica, geometria, geografia, medicina, história e literatura. A construção com 81 metros de comprimento por 56 metros de largura ainda existe e está muito bem conservada. Ela não possui janelas externas e é composta por um conjunto de salas reservadas na época para conferências, de 50 celas (quartos dos alunos internados) e uma mesquita de inverno. Como característica de toda construção islâmica, essa madrasa é decorada com mosaicos coloridos e o teto em abóbada da mesquita é formado por milhares de estalactites calculados provavelmente pelo astrônomo Al-Kashi.

O bem mais precioso dessas escolas era a biblioteca que geralmente contava com mais de 15 mil volumes, abrangendo assuntos básicos da matemática até complexas descrições da medicina da época. O alto grau de exigência era outra tônica do lugar. Quem fosse reprovado nas provas mensais era automaticamente desligado da instituição. Isso levava as madrasas a oferecer um alto nível científico, artístico e técnico, o que atraía estudantes de toda a Ásia.

Por mais paradoxal que possa parecer, Ulugh Bei era favorável ao desenvolvimento intelectual da mulher, tanto que uma inscrição encontrada no alto da madrasa de Bukhara diz que “Aspirar ao conhecimento é o dever de todo muçulmano e de toda muçulmana”. Isso de fato era uma atitude revolucionária para a época, haja vista que a sociedade persa-árabe via a educação das mulheres como indecente. Mas Bei defendeu obstinadamente o direito delas à boa educação e sempre as acolheu nas madrasas.

Mentes restritas

Em pleno século XXI ainda testemunhamos tristemente a ação de regimes totalitários, sejam eles de cunho político ou religioso, os quais privam boa parte da sociedade de sua liberdade civil, da busca pelo conhecimento e do exercício da cidadania. Na época de Bei o dogmatismo religioso era infligido à população de forma radical. Todos deviam se guiar somente pelas palavras da verdade contidas no Corão e no Hadith. Quem quisesse ir além disso estaria tentando se apoderar dos segredos de Alá.

Não era possível, portanto, a convivência de um príncipe com princípios liberais em relação à educação principalmente das mulheres e a ortodoxia reinante. Isso foi o início da derrocada de Ulugh Bei, das madrasas e da luz da ciência criada por ele. Numa história de sucessões e conspirações, Ulugh Bei foi decapitado a mando do próprio filho na aldeia de Bagum, próximo a Samarcanda em 1449.

Além das madrasas, Bei e sua equipe deixaram um extenso estudo de 700 estrelas catalogadas na chamada Zij (tabelas), as quais foram utilizadas por astrônomos até o final do século XV.

Hoje, uma cratera lunar de 54 km de diâmetro leva o seu nome, pequena honraria frente ao monumental legado deixado por ele em prol da ciência e da sociedade.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação). 

Publicado na edição 10.684, quarta, quinta e sexta, 20, 21 e 22 de julho de 2022.