Sebastianismo à brasileira

José Mário Neves David

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Reza a história que na batalha de Alcácer-Quibir, ocorrida no norte da África no final do século XVI, o então rei de Portugal Dom Sebastião desapareceu em campo de batalha travada contra um exército Saadiano apoiado pelo Império Otomano. Como o mandatário português sumiu em combate e nenhum corpo foi jamais encontrado para atestar seu eventual falecimento, criou-se em Portugal a expectativa do retorno triunfal e a qualquer momento de Dom Sebastião ao seu povo, trazendo consigo a esperança de tempos melhores e a solução para todos os males de seu reino – movimento este conhecido até hoje como Sebastianismo.

É da natureza humana a expectativa por dias melhores em tempos de crise e de dificuldades. Até como forma de combater o desespero, apegamo-nos com esperança a eventos futuros e incertos que, caso ocorridos, finalmente trarão consolo aos nossos sofrimentos. O mesmo se aplica às pessoas públicas: depositamos em líderes a esperança pela mudança para melhor. Ocorre que nem sempre essa expectativa é correspondida, ou pior, saudável.

Nações com sérios problemas estruturais – e o Brasil não foge deste roteiro – têm o velho e perigoso hábito de depositar em pessoas, seres humanos com defeitos e virtudes como qualquer um de nós, as esperanças por dias melhores. Em nosso País, esta esperança tem especial apreço por políticos, pessoas que interpretam os anseios da população e encarnam personagens que, ao menos em período de campanha eleitoral, resolverão as mais diferentes mazelas da sociedade. Muitas pessoas, algumas por ingenuidade, outras pela miséria, outras por ideologias altamente enraizadas, de tempos em tempos consignam em políticos suas mais altas esperanças por soluções, algumas de cunho mágico. É o Sebastianismo à moda brasileira: vivemos à espera da chegada de um salvador, que pode ser herói ou vilão.

Neste contexto, é altamente perigoso que coloquemos todas as nossas esperanças por dias melhores em pessoas específicas, sejam elas de uma matriz ou outra ideológica. Países desenvolvidos são baseados e se desenvolvem com fundamento em planos e projetos claros de Nação, mediante atuação regular de instituições sólidas, alertas e acima de qualquer espectro ideológico. Pensa-se como País, não como Governo. O fato de depositarmos tão profunda e cegamente nossas expectativas por dias melhores em pessoas específicas, não importa qual seja a conduta desta pessoa, ressalta nossa propensão ao personalismo, à ideia de que “somente fulano(a) serve e pode resolver nossos problemas”. Não é bem assim.

O Brasil tem um largo e extenso histórico de políticos, em todas as esferas de Poder, que prometeram mundos e fundos e, uma vez eleitos, não entregaram nem metade do prometido. Mesmo assim, seu séquito de apoiadores não diminuiu, muito menos houve uma análise desprovida de paixões quanto às suas ações e omissões. Esse apoio cego e incondicional é altamente perigoso e pode levar a todos, apoiadores ou não, ao abismo.
Assim, é fundamental para o bom desenvolvimento do Brasil que não nos apeguemos demasiadamente a determinada pessoa, seja ela de qual partido for, fechando os olhos para seus erros e superdimensionando seus acertos. Tampouco, que depositemos em alguém, a cada quatro anos, todas as nossas expectativas e anseios de forma acrítica, sob o risco de vivermos eternamente na espera por um salvador da Pátria que, assim como qualquer outra pessoa, acerta, erra e, às vezes, prejudica seriamente o País, mas que sempre deve responder por seus atos e omissões perante as instituições e em tempos de eleição. A política e o País clamam por menos personalismo e mais análise crítica.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).

Publicado na edição 10.558, de 27 de fevereiro de 02 de março de 2021.