Todos têm alma?

José Renato Nalini

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A diferença substancial entre o homem e os demais animais deveria revelar, na criatura humana, a presença de um princípio vital. Aquilo que não poderia ser mero fruto da evolução e que se convenciona denominar alma.
A alma é o que distanciaria o ser da espécie racional dos outros seres animados. No mais, tudo se avizinha. Os corpos físicos não são tão diferentes, como o comprovou a pesquisa do genoma.
Qual a origem do corpo humano? Não difere daquela constatável entre os outros animais. Mamífero, deriva de alguma coisa que já foi identificada como forma desconhecida e inferior. Quem não se recorda do asserto que a tantos chocou: “o nosso mais próximo antepassado foi um quadrúpede piloso, fornecido de cauda e de orelhas pontiagudas, que vivia no antigo mundo, habitando provavelmente as árvores”. Em síntese, o homem é o macaco que perdeu a cauda e, em alguns exemplares, um pouco de pelo.
Não se cuida de revolver as hipóteses sustentadas por Mivart, Guillemet, Zahm e Leroy, que se acercam do evolucionismo. Teoria que é perfeitamente conciliável com o design inteligente e, portanto, não é herética.
O livro póstumo de Oliver Sacks (1933-2015), “Tudo em seu lugar”, tem um texto interessante: “Orangotango”. Ele se defrontou no espaço reservado a um exemplar de tal símio no zoológico de Toronto. Era uma fêmea. E ele relata: “E então, separados apenas pela lâmina de vidro, ela me olhou nos olhos e eu nos dela, como apaixonados que se contemplam”… “A afinidade era óbvia: nós dois podíamos ver o quanto éramos similares. Para mim, foi espantoso, fascinante: tive uma sensação intensa de parentesco e proximidade como nunca antes com um animal”.
Afinidade maior do que aquela que se não encontra em relação a seres de nossa espécie que não se condoem com o sofrimento dos semelhantes submetidos a situação terrível, por força da pandemia. Para eles, mortes são números. Cifras, das quais as mais importantes são as da economia. Preocupam-se com a retomada a qualquer custo, desatentos à severa advertência dos cientistas. Pensam nos lucros, na contabilidade, na preservação dos negócios.
Esquecem-se de que deveríamos ser mais humildes, a reconhecer nossa fragilidade e impotência diante de uma finitude tão vizinha. Chegam a nos fazer acreditar que nem todos os humanos foram dotados daquele intangível espírito vital chamado “alma”.

 

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

 

Publicado na edição nº 10522, de 30 de setembro a 2 de outubro de 2020.