Um bebedourense na Missão Médica Brasileira na Primeira Guerra Mundial

José Pedro Toniosso

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Missão - Fausto de Souza Camargo, soldado bebedourense enviado ao palco da guerra como apoio à Missão Médica brasileira na França, em agosto de 1918.

Iniciada em julho de 1914, a Primeira Guerra Mundial foi um conflito de escala global, mas que envolveu nos primeiros anos apenas países europeus, com a polarização entre os componentes da Tríplice Aliança formada por Alemanha e Áustria-Hungria, e os da Tríplice Entente, que incluía França, Grã-Bretanha e Rússia.

No decorrer do tempo, outros países entraram na Guerra, inclusive de outros continentes, com destaque para os Estados Unidos, que ingressou contra a Alemanha em abril de 1917. Este fato influenciou para que diversos países da América Latina também deixassem a posição de neutralidade e declarassem guerra contra os alemães, entre eles o Brasil, cuja decisão teve como respaldo o afundamento de cinco navios brasileiros por submarinos alemães no período entre abril e outubro daquele ano. Desta forma, em 26 de outubro de 1917, o presidente Venceslau Brás, após aprovação do Congresso, assinou decreto com declaração de guerra contra a Tríplice Aliança.

Foi neste contexto que o jovem bebedourense Octávio Furquim, filho do então prefeito Raul Furquim, decidiu incorporar-se ao Exército Nacional como soldado e voluntário, abandonando momentaneamente os estudos na escola de engenharia do Rio de Janeiro e sendo incluído no treinamento de manobras e no manejo de armas de guerra. O fato foi divulgado pela imprensa local em outubro de 1917, apresentando-o como “nobre e digno exemplo”, cumprindo com “o seu dever de patriota e brasileiro que sabe amar e querer a sua nobre e grande Pátria”.

Efetivamente, havia muita preocupação com o alistamento e a mobilização militar, que resultou na atuação de intelectuais e militares por todo país, com a nomeação de Olavo Bilac como presidente da Liga de Defesa Nacional. Porém, os primeiros soldados-cidadãos brasileiros seriam recrutados por meio de sorteio. Em edição de fevereiro de 1918, a imprensa de Bebedouro informava “os nomes dos moços que foram sorteados para servir no exército”, sendo doze incorporados ao regimento de infantaria em Caçapava, SP, e três para a capital federal no Rio de Janeiro. Indicava ainda mais vinte e cinco nomes para substituírem os quinze primeiros conforme fosse necessário.

Antes da partida dos jovens convocados, foi organizado um “programa de festas em honra dos formosos legionários de Bilac”. A programação incluiu uma soireé no Theatro Odeon, com muita música, danças, comidas e bebidas, além de discurso do dr. Zacharias Bahia; sessão cívica no Paço Municipal, presidida pelo “venerando e benemérito republicano” Cel. João Manoel; banquete oferecido pela Câmara Municipal no Hotel Amadeu. O embarque dos soldados na estação da Cia. Paulista ocorreu em meio a vivas e aclamações dos que compareceram para as “derradeiras despedidas”, sendo oferecidos muitos ramalhetes de flores naturais.

Entretanto, apesar dos esforços e devido às limitações existentes, a participação do Brasil nesta guerra não foi especificamente no campo militar, mas sim oferecendo suporte aos que combatiam, com a criação e organização da Missão Médica Especial, por meio de um decreto de 10 julho de 1918.

Em 18 de agosto, a Missão Médica partiu para a França com 131 componentes, dos quais 92 eram médicos e 30 soldados, entre eles o único bebedourense que efetivamente foi enviado ao teatro da guerra, o jovem Fausto de Souza Camargo, embora como apoio àqueles que iriam prestar serviços em território francês no Hospital Franco-Brasileiro para as Vítimas da Guerra.

Filho do agricultor Luiz Camargo, Fausto era soldado do 43º batalhão de caçadores, com sede em São Paulo, sendo indicado pelo comandante, juntamente com mais sete companheiros. Seu embarque ocorreu na Estação do Povoado de Andes e foi bastante concorrido, seguindo então para o Rio de Janeiro, de onde partiu para a Europa.

A data do término oficial da Missão Médica Especial foi 19 de fevereiro de 1919, quando então o bebedourense retornou à sua terra natal, onde foi recebido com muitas honras. Na edição de 13 de março daquele ano, o jornal “A Vanguarda” publicou: “Ao jovem e brioso militar que em Paris prestou os mais relevantes serviços no Hospital Brasileiro ali fundado e que esteve pronto a oferecer a sua vida na luta travada contra a barbárie germânica, apresentamos nossas calorosas felicitações pela maneira digna com que se houve, concorrendo para o engrandecimento, no estrangeiro, do nome de nossa grande e adorada Pátria.”

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense).

Publicado na edição 10.687, de sábado a terça-feira, 30 de julho a 2 de agosto de 2022.