Uma olhadinha fortuita para o céu

Wagner Zapároli

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É impossível definir quando o homem (ou algum ancestral seu) olhou para o céu e notou o brilho das estrelas pela primeira vez. Impossível também é saber o que ele pensou acerca dessa visão. Decerto a preocupação mais imediata que tinha devia referir-se à fome diária. Mas imaginem a cena de um grupo de hominídeos com a barriga cheia ao redor de uma fogueirinha numa noite de Lua Nova, quando a intensidade aparente das estrelas atinge o seu ápice e o céu vira um verdadeiro tapete iluminado e colorido. Seria quase impossível não levantar a cabeça, olhar para o céu e deixar a imaginação viajar.

Assim a história da humanidade e da ciência se fez ao longo dos tempos, permeada pela curiosidade e misticismo, evoluindo à medida que alguém prestasse um pouco mais atenção ao mundo à sua volta e sistematicamente registrasse os pensamentos e acontecimentos.

Da mesma forma que os hominídeos uma vez olharam para o céu há milhões de anos com singular curiosidade, assim o fizeram os persas e os gregos antes da era cristã e demais povos europeus e asiáticos durante o obscurantismo da idade média. O italiano Galileu Galilei foi o primeiro a olhar para o céu com uma luneta de forma sistematizada, registrando as informações e publicando um pequeno livro chamado Mensageiro Sideral.

A evolução tecnológica do século XX por sua vez permitiu ao homem diminuir a sua miopia em relação à visão do Universo, disponibilizando imagens e informações que causaram inúmeras revoluções na astronomia. Uma delas fez com que o teto ptolomaico se desfizesse como vapor d’água no espaço, mostrando que o céu na verdade possuía profundidade talvez infinita, sendo recheado não só por estrelas, mas milhões de galáxias, buracos negros e matéria escura. Também permitiu a observação da morte e nascimento de estrelas, permitiu identificar diferentes estrelas em termos de composição química, formato e cores e permitiu descobrir o quão a raça humana, os seres vivos e a Terra são apenas um minúsculo e imperceptível detalhe do Universo.

Sobre os pontinhos brilhantes

Um dos astros mais brilhantes do céu, excetuando-se a Lua e o Sol obviamente, é a Estrela d’Alva que aparece sempre de manhazinha antes do nascimento do Sol e no finalzinho da tarde logo após o seu ocaso. Às vezes, o dito popular é tão forte que se sobrepõe ao desconhecimento do homem. Eu mesmo por muito tempo acreditei que a Estrela d’Dalva era de fato uma estrela, quando na verdade ela não passa de um planeta do nosso Sistema Solar: Vênus. E o seu brilho é a luz refletida do Sol em sua superfície.

Júpiter é outro planeta que pode ser visto a olho nu e provavelmente é confundido por muitos como uma estrela qualquer. Aliás, quem tiver um simples binóculo pode apontá-lo para Júpiter e se deleitar com a visão de quatro de suas luas. Conta a história que quem as viu primeiro foi o próprio Galileu no século XVII.

As estrelas são na verdade grandes usinas que se mantém acesas devido às fusões nucleares que acontecem em seu interior. As mais massivas são as estrelas de cor azul, cujas massas chegam até 100 massas solares (massa do nosso Sol). Por conseguinte também são as mais luminosas. Para se ter uma idéia a estrela Rigel é 62.000 vezes mais luminosa do que o Sol. Outras duas, Betelgeuse e Antares – estrelas supergigantes – chegam a brilhar milhares de vezes mais que o Sol. As estrelas mais comuns vistas no céu são as de mais baixa luminosidade, as estrelas vermelhas (frias) e são comumente chamadas de anãs vermelhas.

Uma estrela nasce pela contração de nuvens de gás dispersas no universo que se juntam devido à força da gravidade. Formam o que se denomina proto-estrela, e a partir da estabilização das reações nucleares em seu interior, surge a estrela propriamente dita que terá um ciclo de vida hoje já bem conhecido pelos astrônomos e cientistas. O seu fim, depois de bilhões de anos (o Sol, por exemplo, tem vida estimada em 10 bilhões de anos, dos quais 5 já se passaram) pode resultar numa estrela de nêutrons, num buraco negro ou num objeto frio, sem luminosidade e calor, portanto, um astro morto.

Curiosidades

Quando a navegação européia começou a entrar por mares antes desconhecidos, não existia a tecnologia direcional que hoje existe, como o GPS. Quem servia de guia eram as estrelas. No hemisfério norte existe uma estrela guia chamada Estrela Polar. Por ela os grandes navegadores conseguiam sair de suas origens e chegar aos seus destinos sem grandes desvios de rotas. Já no hemisfério sul os navegantes adotaram a constelação do Cruzeiro do Sul como ponto de referência. Quem batizou essa constelação com o nome Cruzeiro do Sul foi Mestre João, astrônomo e astrólogo que integrou a equipe de Pedro Álvares Cabral no descobrimento do Brasil.

Aquela olhadinha

Meu caro leitor, quando tiver a oportunidade de estar em um local afastado com pouca iluminação, estique seu pescoço, dê uma olhadinha fortuita para o céu e se deleite com as cores e belezas que a natureza nos premiou. Quem sabe não viverá a mesma e maravilhosa experiência que nossos ancestrais viveram milhares de anos atrás. Vale a pena, vai ver!

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.690, de quarta a sexta-feira, 10 a 12 de agosto de 2022.