As nossas crianças continuam fora da escola

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Em janeiro último o Brasil recebeu uma notícia alentadora para a sofrida e agonizante ciência nacional, a de havia sido promovido ao grupo de elite da matemática mundial. O denominado Grupo 5 da União Matemática Internacional (IMU em inglês) reúne somente as nações mais desenvolvidas na pesquisa nessa área e o Brasil passa a ser o único representante da América Latina a fazer parte desse grupo.

O país aderiu ao IMU há mais de seis décadas, especificamente em 1954. A partir daí, passou pelos Grupos 2 (1978), 3 (1981) e 4 (2005), chegando agora ao 5, onde fará companhia para países como Alemanha, Canadá, China e Estados Unidos, entre outros. Isso o permite obter cinco votos na assembleia geral da organização e reafirma o seu potencial interno de obter conquistas importantes no âmbito mundial a despeito das canalhices que a classe política tem realizado com as instituições científicas e educacionais do Brasil.

 

Caminhos tortuosos

Se por um lado recebemos essa ótima notícia sobre o sucesso da matemática tupiniquim, por outro, temos que conviver com a triste notícia de que ainda existem muitas crianças brasileiras fora da escola.

Embora os números tenham melhorado na última década – em 2005 o número de crianças fora da escola chegava a 5 milhões – ainda convivemos com um alto contingente daqueles que não têm oportunidade de estudar e se perdem pela vida, ora escravizadas, ora em servidão por dívidas ou ainda por exploração sexual.

Em 2010 o UNICEF em parceria com a UNESCO e com a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, lançaram uma iniciativa global cuja meta era ter até 2015, 96,3% das crianças e adolescentes dentro das escolas. Infelizmente 2015 já passou e ainda restam cerca de 2,5 milhões dessas crianças e adolescentes sem a oportunidade de estudar.

 

Pobreza extrema

A despeito de o Brasil ter vivido anos de estabilidade econômica, cerca de 4 milhões de famílias ainda viviam na pobreza extrema em 2010, de acordo com o Censo daquele ano. Muitas das crianças oriundas de famílias nesse nível de pobreza estavam fora da escola. Para compensar essa fragilidade financeira, elas deixavam a escola na busca de um trabalho que ajudasse a renda familiar ou, no mínimo, faziam o serviço doméstico para liberar as mães para poderem realizar um serviço remunerado fora de casa. Para se ter ideia, de acordo com o PNAD 2009, 4,3 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalhavam no país em média 26,3 horas semanais.

Além o fator pobreza, a inadequada infraestrutura de mobilidade, principalmente em zonas rurais, também contribui para a ruptura da relação criança – escola. Muitas delas em regiões do norte e nordeste simplesmente não têm como chegar à escola devido à falta de transporte público. Outras fazem o sacrifício de caminhar dezenas de quilômetros muitas vezes de estômago vazio.

 

Professores marginalizados

A situação dos professores em relação ao tema aqui discutido poderia ser considerada um capítulo à parte, dada a influência que ela tem sobre os resultados na formação de nossas crianças e adolescentes.

De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), divulgados na Semana de Ação Mundial, em 2006, um professor de Educação Infantil ganhava até 20 vezes menos do que um juiz e um professor de Ensino Médio recebia até um quarto do salário de um delegado de polícia. Em média, um professor tinha uma renda 50% menor do que a média salarial de profissionais de outras categorias com o mesmo nível de formação. Essa situação não mudou nos dias atuais.

Aliados à remuneração ridícula do professor brasileiro encontram-se a ausência de planos de carreira, instabilidade no emprego devido ao alto percentual de contratações temporárias, a falta de estrutura material para a adequada aula e, principalmente, a falta de respeito em sala de aula. Não há outro termo que melhor caracterize a situação do professor brasileiro: uma vergonha nacional!

 

Um longo caminho

Não existe milagre súbito que possa transformar o cenário de nossas crianças, nossos professores e nossa educação em um motivo de orgulho nacional. Países como Coreia do Sul e China levaram décadas para se reinventarem. Posto que a transformação seja um processo, são necessários muita vontade, muito trabalho e muito foco de nossos governantes, bem como da própria população. Não importa que seja um longo caminho, mas é necessário dar o primeiro passo. Afinal, criança fora da escola não pode!

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).