O outro lado da canção do exílio

0
565

“Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. 

 

Por anos seguidos, nós alunos do ginásio e do colégio fomos perseguidos pelas estrofes poéticas de Olavo Bilac, José de Alencar, Gregório de Matos e Manuel Bandeira, entre outros, e textos de Machado de Assis, Jorge Amado e José Lins do Rego. Não bastasse o preenchimento das intermináveis fichas de leitura que comprávamos sempre de ultima hora nas saudosas lojinhas do José Paschoaletti e A Vanguarda, muitas vezes tínhamos que decorar trechos e recitá-los ao lado da mesa do professor para a classe. Cruzávamos os dedos das mãos, dos pés (e se tivéssemos outros também os cruzaríamos) e rezávamos para todos os santos disponíveis na lembrança naquele momento a fim de não sermos escolhidos. Quando nada disso funcionava, lá íamos nós com a cara rubra e pouca coragem. Era a morte!
Um dos poetas mais presentes em nosso cotidiano foi Gonçalves Dias (1823 – 1864), maranhense de Caxias, que em 1838 mudou-se para Portugal para realizar os estudos de direito na Universidade de Coimbra. Foi lá, inspirado na obra Canção de Mignon, do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832), que Dias compôs talvez o mais famoso dos poemas brasileiros – a Canção do exílio – que trata de forma saudosa o sentimento de ausência da terra natal, exacerbando o nacionalismo simbólico que permeava a literatura da época.
Se por um lado Gonçalves Dias se tornou famoso no âmbito literário pela contribuição poética de alta qualidade, por outro, a sua contribuição científica passou à margem da história recente e hoje é completamente desconhecida dos brasileiros.

Etnografia poética
Gonçalves Dias se tornou membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1850, e por ele, viajou para Portugal em uma missão para procurar documentos que o ajudassem a compor a história brasileira. Foi nessa época que dom Pedro II encomendou a ele um estudo que fizesse a comparação entre os índios do Brasil e os índios da Oceania. Como resultado, Dias produziu Brasil e Oceania, usando, principalmente, relatos de viajantes.
De 1850 a 1860, Dias integrou a Comissão Científica do Império, cuja meta era levar especialistas brasileiros a conhecer a natureza brasileira de forma objetiva. O estado escolhido para essa missão foi o Ceará, por ser um estado ainda pouco explorado por pesquisadores. No entanto, entendendo que ali não obteria “tipos puros” de indígenas, rumou para o Amazonas onde observou línguas faladas e enviou objetos etnográficos para o Rio, incorporados, a posteriori, ao Museu Nacional.
Tamanha experiência adquirida por anos de viagens e pesquisas pelo país certamente forneceram a Gonçalves Dias insumos suficientes para produzir grandes obras antropológicas, o que de fato não se detecta atualmente. Supõe-se que todo material coletado e produzido pela Comissão foi perdido num naufrágio ocorrido em 1864 quando voltava da Europa. Nesse mesmo naufrágio, Gonçalves Dias morreu.
Se a ciência de Dias não sobreviveu aos anos, a poesia, por outro lado, ainda se mantém na perseguição dos alunos desavisados.
“… Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá…”.

Em tempo
A despeito da brincadeira com as fichas de leitura, o fato é que hoje sou profundamente agradecido a todos os meus ex-professores que tiveram a paciência e o comprometimento pela alta exigência com a língua portuguesa e com a comunicação. Se naquele momento eu não entendia a importância, hoje eu não tenho dúvidas de que a leitura e o conhecimento da língua são fatores essenciais para o exercício pleno da cidadania.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: wzaparoli@gmail.com).

Publicado na edição n° 9419, dos dias 30 de junho, 1 e 2 de julho de 2012.