O que a história esqueceu

Wagner Zaparoli

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O rio Nilo foi na antiguidade, um dos maiores presentes da natureza para o povo egípcio. Todo ano suas águas transbordavam, transformando as margens num vale fértil em contraponto à árida e estéril região desértica a qual ele serpenteia. Para ter idéia de sua importância, os antigos egípcios dividiam o ano em três estações: a Inundação, a Vegetação e a Colheita, baseando-se no ciclo de vida do rio.

A despeito da fertilidade da terra promovida pelo rio Nilo, o Egito é costumeiramente lembrado pelas pirâmides, pelas múmias e pelo misticismo que envolve a sua cultura, muito devido às dificuldades de interpretar a língua e o simbolismo que a envolve. Somente em 1822 é que o francês Jean-Freançois Champollion conseguiu decifrar os hieróglifos tomando por base os escritos cunhados na Pedra de Roseta encontrada pelos soldados de Napoleão.

Embora de forma limitada, a partir dessa data começou-se a estudar com mais ênfase a cultura egípcia de maneira tal a entender realmente qual foi a contribuição daquela civilização para a evolução da ciência e da humanidade.

Além de Aristóteles e dos gregos

Até dois séculos atrás o conhecimento da humanidade tinha como base o pensamento de Aristóteles que atribuía à Grécia a criação da civilização e do desenvolvimento do homem. Civilizações como a dos sumérios, caldeus e egípcios eram absolutamente ignoradas e, por conseguinte, as suas culturas e os seus conhecimentos também.

Especificamente sobre os egípcios podemos afirmar que ainda no século XXI, a história caminha às cegas  em busca de informações que acredita-se estejam soterradas. Antônio Brancaglion Jr., ex-professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, afirmava que somente 20% do que lá existe realmente havia sido descoberto. Ele citava, por exemplo, a tumba de um dos maiores gênios egípcios, o escriba, engenheiro, médico e astrônomo Imhotep, que sequer apresentou qualquer pista até hoje. Provavelmente se um dia ela for descoberta, muita informação da civilização egípcia virá à luz, evidenciando o potencial de sua cultura e a extensão de seu conhecimento.

À luz do conhecimento

Embora restrita, a história da civilização egípcia tem revelado um enorme leque de conhecimentos que outras civilizações como a grega e até a sociedade contemporânea adotaram integralmente.

Por exemplo, ideias como a da alma imortal, de um deus criador e, do bem e do mal têm raízes egípcias. Outro exemplo, as técnicas médicas utilizadas por Hipócrates na Grécia antiga já eram executadas dois mil anos antes no Egito. E assim poderíamos citar a elaboração de jogos, a construção de instrumentos musicais e a criação de armas sofisticadas, tudo isso bem antes da Grécia se tornar a maior democracia do mundo antigo.

Uma das áreas da ciência em que os egípcios se destacaram foi a astronomia. Observando o céu noturno, os astrônomos-sacerdotes conseguiram determinar as fundações de suas construções com rigorosa exatidão. Para se ter uma idéia, tomemos o exemplo da Grande Pirâmide de Gizé, cujas fundações ocupam mais de 5 hectares e ainda assim os seus quatro lados estão em perfeito alinhamento com os quatro pontos cardeais – norte, sul, leste e oeste. Eles também conheciam cinco planetas do Sistema Solar e tinham o hábito de observar a passagem de meteoros e cometas, como o Halley, isso 2000 anos a.C..

A medicina também aparece como destaque egípcio. Foram eles a fazerem a primeira classificação anatômica humana, dividindo o corpo entre cabeça, tronco e membros. Foram excelentes ortopedistas, como mostram os esqueletos encontrados nas tumbas, principalmente em relação ao tratamento das fraturas. Os papiros indicam que eles também exploravam as técnicas cirúrgicas, como a circuncisão, amputação e retirada de tumores.

E os conhecimentos egípcios não param por aí: eles se aventuraram com enorme sucesso pela engenharia e arquitetura, pela indústria naval e até pela metalurgia. E com a construção de canais de irrigação, dominaram eficientemente a agricultura.

No entanto, teimamos em associar os egípcios às pirâmides e às múmias, rigorosamente ignorando uma cultura excepcional e bem evoluída. A arqueologia tem tentado reescrever esta história e cedo ou tarde parece-nos que iremos constatar que as margens férteis do Nilo não se resumiam apenas ao solo e à agricultura.

E para quem gosta do tema, vale a pena dar uma olhada nesse documentário https://www.youtube.com/watch?v=Rz_JbADW-e0.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.780, de quinta a terça-feira, 2 a 7 de novembro de 2023