Reminiscências de um mal

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Em 1862, Edwin Smith – um egiptólogo amador – comprou um papiro de cinco metros de comprimento de um vendedor de antiguidades em Luxor, Egito, que datava do século VII a.C.. Embora em péssimas condições, ele foi traduzido em 1930 revelando ensinamentos de Imhotep, médico egípcio que viveu por volta de 2625 a.C.. O papiro consistia na descrição detalhada de 48 casos, os quais se supõem que foram tratados por Imhotep durante parte de sua carreira. Nele existiam temas sobre fraturas de mão, abscessos na pele, ossos despedaçados do crânio e inúmeras outras enfermidades médicas comuns a um glossário anatômico dos tempos modernos.
O caso 45, entretanto, foi o que mais chamou a atenção aos especialistas, pois citava termos como “massas salientes como bolas de papel de presente, duras e frias ao tato”.
Tais citações não poderiam deixar de ser a melhor caracterização para o câncer de mama, àquela época um completo desconhecido. Ao que se sabe, é a referência médica mais antiga para a doença, a qual Imhotep indicava como solução terapêutica, a lacônica frase “não existe”.
Dois milênios se passaram para surgir outra referência desse mal, desta vez, pelas palavras de Heródoto, pai da historiografia grega. Por volta de 440 a.C., Heródoto contou a história de Atossa, rainha da Pérsia que foi subitamente acometida de uma doença incomum, caracterizada por um caroço que lhe sangrava no peito. Como rainha, teria a prerrogativa de utilizar todo conjunto médico existente em seu reino. Mas, quis sua vontade transformá-la numa reclusa, envolta em lençóis por muito tempo até um escravo grego chamado Democedes convencê-la de extirpar-lhe o tumor. Após a operação, Atossa desaparece do texto de Heródoto impossibilitando-nos de conhecer os seus impactos.
A memória revivida por essas breves descrições nos mostra que o câncer, embora de forma dissimulada, deixou sua marca indelével na história do mundo antigo.

A sustentabilidade da arqueologia
Se para alguns a história contada pode ser falha e inconsistente, um tecido maligno vívido torna o caso inegável. Foi o que aconteceu a Arthur Aufderheide, paleontólogo da Universidade de Minnesota, Estados Unidos. Fazendo autópsias em múmias peruanas que viveram há mais de 1000 anos no deserto do Atacama, Aufderheide descobriu uma dura massa bulbosa no antebraço esquerdo de uma jovem de pouco mais de 30 anos, cuja pele fina cedia à pressão dessa massa, indicando um tumor ósseo maligno denominado osteossarcoma. Ainda revisitando as múmias, Aufderheide encontrou inúmeros esqueletos crivados de pequenos buracos causados pelo câncer no crânio e nos ossos do ombro, oriundos de pele metastásica.

Entendendo a pequena afluência
Se os mesopotâmios conheciam suas enxaquecas, os egípcios o abscesso e os hindus a varíola, por que há de ser raro o conhecimento sobre o câncer? A despeito do apoio da rica arqueologia e dos relatos antigos, a verdade é que há muito pouca história sobre essa doença.
Sabe-se que ela está diretamente relacionada com a idade. O risco de câncer de mama, por exemplo, é de um em quatrocentos numa mulher de trinta anos e aumenta para nove numa de setenta. Provavelmente essa relação seja uma das razões para a raridade histórica, já que nas sociedades antigas as pessoas não viviam o suficiente para desenvolver a doença, e quando viviam, eram literalmente consumidas por outras como a tuberculose, o cólera, a varíola, a lepra e a famigerada peste, a qual dizimou parte da população européia do século XIV.
Assim, a longevidade e o avanço tecnológico emergentes no século XX foram fatores que sensivelmente contribuíram para o predomínio do câncer entre as principais doenças da sociedade moderna. Se em 1850 a morte de uma criança com leucemia poderia ser atribuída a um abscesso ou infecção, hoje, se não reconhecida a tempo e completamente extirpada, a autópsia fará impassível e precisamente o diagnóstico da causa morte.
Em 2010 mais de sete milhões de seres humanos sucumbiram devido ao câncer. Em 2030 a Organização Mundial da Saúde estima uma incidência de 27 milhões de casos, com 17 milhões de mortes. Se a cura para a maioria dos tipos da doença ainda é uma esperança, a prevenção deve ser uma arma poderosa. Por isso, a educação em saúde dirigida aos vários grupos sociais se faz urgente e indispensável. Para saber mais, acesse www.inca.gov.br.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: wzaparoli@gmail.com).

Publicado na edição n° 9447, dos dias 7 a 10 de setembro de 2012.